sábado, 7 de agosto de 2021

Jean-Francês-Boticário

Diz que o do cabelo loiro carapinha foi despachado pra Uropa  na missão de estuda esse negócio de cientista, daqueles que mistura as coisa e ferve elas drento dos vidrinho só pra vê se exprode ou muda a cor, mai cuitado, os Doutô botaro o curioso pra corre, quem qui madou o rapaiz achar de cavuca nas crendice do povo e nas alcova das bruxas pumordi de desvendá segredo das erva e dos enfeitiçamento de cura.

Já que vontade de curar o povo num saia do seu peito, ele se amuntou no navio e vorto, desembarcou na Capitar no meio de uma encrenca danada, porcausdique os besta preferia morre ca cara cheidi bixiga que se avacina, ói que bestagê.

Depois da peleja, ele gastou umas temporada fazeno estudamento no Rio, com um tar de Seo Cruz, o  causo é  que o moço cansava logo dos vidrin, sua sina era de especulá com os erveiro, cavuca os segredos das raíz, nóis acha até que os Encantados puxava ele.  

E óia que teve que aprende tudin de novo, pumordi das erva aqui ser diferente das dilá, craro  fique, que as bruxa daqui tamém, mais bonita que as dilá. 

Diz que e o moço rodou nos terreiro da Mãe Preta da Divina Luz, e conheceu dos encantamentos de cravo e canela, adentrou na mata pra ver as cura de fumaça dos Caboclo,  aprendeu os fazimento dos Pajé, dos raizeros, das plantas dos Santos, banhos, chá e dos benzimento.

 Diz que o curador era cor de caramelo, nem preto, nem braquelo,  e justo purisso, ele tinha os caminho aberto no mundo dos vivo e dos morto,  dos branco e dos pretos,  passsejava entre os doutô e os curandeiro, hora abrino conta na banca do Coisa- Boa, hora do Coisa-Ruim.  

O que tinha jeito ele dava um curamento: berne, tosse catarrenta, nó na tripa, cabelo ralo, bafo de cabrito, regra sem dia, verme de barriga, dor de garganta, cu frouxo, febre, calor de moça velha,  possuimento, ferida mandada,  dor de amor, pobrema de pinguelo mole, boca torta, dor de dente, zóio amarelo, fraqueza, mau zolhado, batedera de coração, papada gorda, zóio esbugalhado, coração partido, desamimamento, quebrante, surdeira, queimadeza, furado de revorve,  corte de fação,  e sabe lá o que mais, os que não dava cura, o Capa-Preta carregava na garupa.  

Di caixeiro viajante no sertão velho o andador criou fama de Jean-Francês-Boticário-Curador,  fez reza, encantamento e bateu tambor, deu remédio de Santo e remédio de doutô, sarvou uns mirrado galego vermeio, com canja, rezamento e  manjerição, socorreu boiadero baleado, remendou perna de Saci, e até estrepe de pé de lobisomem o danado tirou. 

Despois de morto, ele se virou em fantasma de plantão nas beirada da Bocaina, purcausadique quando que vivo, o sangue das preta daqui lhe corria nas veia, diz que o pai dele era um francês e ninguém sabe se mãe andou com o home por gosto ou por força, conta o povo que a preta morreu de parto e o estrangero criou o menino na casa grande.  

Antionti de noite eu vortava de bicicreta, juro trêis veiz que senti um vento de luz alumiada soprar no meu cangote, quando  virei  de esgueio,  era ele que ia a galope  no caminho dos tropeiros, falaro despois que foi o causo de o assombração curador socorrer um motoqueiro ressacado, zoiudo e glutão que fazia pouso na Fazenda Boa Vista, diz que o encardido virou o zóio, estribuchou e gumitou, foi quando a  Carminha Rezadera invocou o Jean-Francês,  de manhã o motoqueiro acordou bão, e eu sem ser curpado de nada,  por pouco num caí da bicicreta.  

Making Off

Não é porque eu vi que existe e não é porque  eu não vi que não existe 

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

LINHA ONZE

Mas por costume que por precisão, nóis finadas almas,  amuntava no bonde, das veiz pra bisbilhotar a vida alheia, assombrar um desafeto, fazê algum milagrinho, visitá  parente, ou só bizoiá os vivente,  o causo é que a Linha 11 se encarregava dos mortos e dos vivos, a dureza era quando o motorneiro dava de ser cagão, e vortava patraiz antes de findar no Cemitério da Saudade, tinha ainda uns mais cudiburro, que quando se apercebia que tinha morto nos bancos, se tacava fora do bonde, largava vivo e morto tudo  lá, sem saber quem era quem...
De toda forma, nessa viagem ia nóis 5 finados, autorizado no passeio.  
Eu, cuma vontade doida de tomar café na cidade, com ideia de se me enfiar em quarqué corpo de home ou de muié que ostentasse xícara em punho. 
A Mãe Preta da Luz Divina, ia em missão de cura e bença pra trabaiá com os outros preto, diz que saltava na parada da Abolição.
O Frei Alegário, dizia que tava ino na missa, mas nóis tudo sabia que não. 
Tava tamém a linda Maria Jandira, noiva mais triste do mundo, de quarque mundo,  ia descer na Moraes Sales e se achegar na Visconde do Rio Branco, num disse dos motivamento e nóis num perguntemo. 
O Pedro Jão, êita difunto azedo e falador, diz que ia até o Correio, encontrar um tar de Capa-Preta, amigo seu, ou sei lá eu,  pra depois seguirem pras banda do Araguaia, pumorde dá um prestatenção no  Jão Pedro, um beudo, mano geminado do Pedro Jão...  que um morreu e outro não. 
Era dos combinamento de os morto ir tudo quietinho, pra num perder a carona, quando uma voz de catacumba num se guenta.
Ô fudum de queimado,  tá pegano fogo no bonde é?
Cala-te-boca Pedro Jão, que  mando vosmecê devorta pro o tumbalo sem parada na Capela.
Deixe estar Mãe Preta não vale a pena se abalar. O  desarmado não se intimidou.
Morri de nó nas tripa, num tenho curpa eu,  pior memo é ela, moça bonita, que se tacou fogo no corpo
Ninguém sabe,  ninguém viu,  menos ainda eu, menina nova,  cega de amor.
Rapariga que virou noiva, só nesses cafundó.
Alto lá azedume da roça, malacabado, bafo de bode, fiudumajaca, já me ia subino uma gana de avuá no pescoço do marcriado. 
Nessas artura o Frei apartou, Pedro, saibas tu que o amor pode fazer milagres.
Qual milagre nada, do nó nas tripa ninguém me sarvou... 
Vosmecê amunto na garupa Dele e veio pro lado de cá, sua dor acabou, agora zifiu, num pode recrama.
Certa a Mae, mió nó na tripa que chamuscamento.  
Foi então que se alevantou braba, frutuando uns 5 parmo do chão a Maria Jandira, seus cabelo ventava sem o vento ventar, o vestido branco se alumio em labareda, e ela falou sem carecer de mexer os beiço.
Digo ao  Sr Pedro Jão,  que me fazes pena,  morreste à flor da idade, sem conhecer amor nem mulher, agora estais aí penada alma recalcada, do jeito que vais,  não encontrarás na morte o que não encontraste em vida, nem o céu nem o inferno reclamam o senhor. Já eu vivi, amei, queimei e morri. 
Foi que um solavando sacudiu os morto,  os vivo e os marromenos,  uns tanto dos vivente, mais o motorneiro largaro-di-mão do bonde, picaro a mula correno e gritano do avistamento de alva noiva em forma de assombração, os que num viro, pra num passar por besta dissero que viro tamém, os adormecido,  acordados no susto, saíro desabalado, só pra não ficar patraiz, e nóis que é morto, fiquemo a pé.  
 
Making -Off  

 Não é porque eu vi que existe, e não é porque eu não vi que não existe


quinta-feira, 15 de abril de 2021

Causologia do Sertão: QUEM MATOU O CHICO MINEIRO?

 Quando o Chico garrava na viola, elas ia tudo nele: as preta bonita, trigueira e galega, era sorteira, moça pura, e das veiz alguma compromissada. 

 Foto: Saulo Cruz - 2008 
Festa Do Divino - Pirenópolis - GO
O danado amava todas, nem que fosse só por umas horinhas de sereno... Naquela noite acabou-se em
sangue som da viola, acabou-se o Chico Mineiro. 

Ele era meu legítimo irmão, eu num sabia, foi de cortar o coração, a festa tava tão boa, era festa do Divino, talhado de dança, moça e fita. 

O Capataz correu, mas não pego, O Coroné e os polícia nunca que foram no rastro do pistoleiro, só Nossa Senhora  é por nós boiadeiro.

O Seo delegado disse que era crime sem solução, que o Chico se enfiava cas coisa mais perigosa que tem: moça bonita e politicagê. 

Corria à boca miúda que o matador era  homi do Seo Getúlio* no encalço do Chico, pumordique ele conhecia o Baiano**.

Falaro que o tar da Bahia ia por fogo no mundo, iquenhequisabe se o Chico ia ajudar, em todo causo, num deu tempo. 

Depois que enterremo o Chico, uma formosura de moça me pois o Chiquinho nos braços, disse que era do meu irmão, a zóio verde se sumiu na poeira. 

Larguei mão de comprar boiada, deixei o sertão goiano, e finquei raiz nas Gerais, aqui nas arturas da Mantiqueira, a serra que chora, orna comigo, mais perto de Deus e quem sabe, menos longe do Chico. 

Criei o menino feito meu, cara e fuça do Chico, disse pr'ele as aventura da comitiva, das andança pelo sertão, dos estouro da boiada, da chuvarada atolano o mundo, e do sol cozinhano nóis tudo, ensinei a fazer café tropeiro, falei dos  acampamento nas fazendas, das noites cheidi estrela  miúda,  das festanças,  das cantoria em noite de lua, ô sodade. Contei o causo do lobisome do cerrado, que o Chico espantou só no ponteado da viola , por fim, contei dos acontecido com o Chico.  

Num me veio a corage de fala que o pai dele é morto, deixe quieto, mió assim. 

Quando formou bigode e gogó, dei pro Chiquinho a viola do Chico, ele já sabia tocar.

Making-off 

A famosa canção, que conta a saga do Chico Mineiro, foi provavelmente composta no fim da década de 1930, ficou consagrada na voz de Tonico e Tinoco, e tocou na rádio Tupi até furar o disco. Há quem diga que foi um causo ou um verso que foi musicado. Diz ainda que o boiadeiro era gente de verdade nascido em São Gotardo - MG e jaz em solo goiano. 

* Nesses tempos, o controverso Getúlio Vargas era o piloto supremo da nave mãe,  no  período ditatorial batizado como Estado Novo (1937/1945), muitas perseguições, torturas e outras peripécias antidemocráticas foram perpetradas.  

** O Baiano  é o Carlos Marighella, virou livro, filme, música,  foi preso e torturado pelos homi do Seo Gegê, herói de uns e bandido de outros, inimigo número 1 da Ditadura Militar, o guerrilheiro foi morto pelos agentes do DOPS,  em um bairro luxento da capital, a crocodilagem se deu em novembro de 1969, e o empresidentado era o General. Médici.

Faz parte da Causologia do Sertão  (uns par de causos intercoisado)

Quem matou o Chico Mineiro 

http://blogdaencardida.blogspot.com/2020/11/quem-matou-o-chico-mineiro.html

O Lobisomem do Cerrado  

http://blogdaencardida.blogspot.com/2021/02/lobisomem-guara-do-cerrado.html

A Saga do desgarrado 

http://blogdaencardida.blogspot.com/2021/04/a-saga-do-desgarrado.html

No Ponteado 

http://blogdaencardida.blogspot.com/2021/04/causologia-da-roca-no-ponteado.html

Causologia do Sertão: Lobisomem-Guará

Eu mesmo, Zé Lupino Versipélio Guerra, na carmaria da minguante, antes de entregá meus osso pra esse chão, hei  de fazer os explicamentos da verdade verdadeira.

O causo foi mar contado, e  marcontamento, esparrama mai que pé de chuchu,  iquenhéque vai dá crença num véio guará ?

De toda forma o  negócio foi no tempo que o diabo era minino, e nóis era tudo moço frondoso,  num era bonito ser feio, os home  mirava as garrucha nos Guará,  e inté os marmanjo tinha medo de sombração. Careço de saber se era mió ou pió. 

A verdade dos acontecido é que quando me virei no bichão,  mais por gosto que por obrigação, eu tinha fome de bicho, fome de bicho todo mundo tem, o que muda é só o jeito de nóis se servi. 

Já era sabido da comitiva acampada, se alumiano na serena nas beiras do São Miguel.

Montei espreita  nas pedra, era uma boiada  vistosa,  minhas fuça  farejava o cheiro bão de  mandioca cozida.   

Nos percebimento que  forasteiros tinha apreço nos cachorro, não fosse noite de viração, nóis inté podia toma uma cachaça junto,  mai o ofício da assombração pertence aos mistérios do Noturno,  já  o ofício do boiadeiro é leva a boiada, nóis num tava lá no sertão eterno pumordi de fazê amizade, então, só de treino espreitei eles. 

Os pobrema é que os moço virado em lobisomem tem uma vontadade marvada de uivá, nóis, cheididente, não se guenta. 

Deve di ser   pumordi da redonda lá em cima descer ninóis as bença da Lua-Mãe, nessa hora os sem-pelo escuta nossa algazarra e  toma tento de fechar os galinheiro e guardar as criação. 

Marquei de mijo os canto de sempre, e despois dos uivamentos,  ericei os pelos e logo mirei no novilho miúdo que desgarrou,  pumordi de refrescar  aguela no sangue fresco do cuitadinho.

  Na hora da servageria,  o tar da viola tascou  um pontiado dos mai bonito do mundo,  fio de Deus, a chama da fogueira refletia no zóio do violeiro, os dedo dele ficaro invisivi de tanta ligereza. 

 Assombração que não é besta,  sabe pra quem aparece, aproveitei o distraimento deles, e saí no encalço do novilho, bem na hora de me farta, putaqueparir, pequei um baita istrepi no pé. 

Saí galopano varado de dor, me esbarrei aqui e ali, coisa pouca, e sumi no mato. 

Ai,  tá feito, pra os da comitiva  espaiá  que o Chico Mineiro espantou o Lobisomem do Cerrado só no pontiado da viola. 

Tudo lorota e marcontamento desses boiadeiros, que reiva que deu.  

Makink-off 

 Faz parte da Causologia do Sertão  (uns par de causos intercoisado)

Quem Matou o Chico Mineiro 

http://blogdaencardida.blogspot.com/2020/11/quem-matou-o-chico-mineiro.html

O Lobisomem do Cerrado  

http://blogdaencardida.blogspot.com/2021/02/lobisomem-guara-do-cerrado.html

A Saga do desgarrado 

http://blogdaencardida.blogspot.com/2021/04/a-saga-do-desgarrado.html

No Ponteado 

http://blogdaencardida.blogspot.com/2021/04/causologia-da-roca-no-ponteado.html

 


Causologia do Sertão: No ponteado

 No Firmamento nóis tudo fica esperano a hora do sertão chama de vorta,  morri de morte matada, vivê morto é bão tamém, o duro é a sodade das moda de viola, das moça, e das comitiva.  

Crêdito que o ocê,  na sua santice de anjo, deve di sabe que eu fui boiadeiro de ofício e violeiro, pumordi que o Divino Deus me plantou essa faísca no peito, arranjei uma viola cô nono do primo do Padre de São Gotardo das Gerais,  aprendi de orvido e tomei gosto na coisa, logo apelidaro eu de Chico Mineiro, violeiro e boiadero,  esse negócio das moça se encanta nimim, tudo obra da viola.

Eu tocava quarqué boiada e quarqué moda: chorosa, sardosa, contente, nas moda corno não tenho apreço, mais se os traído pedia, cantava tamém. 

Daquela vez,  finquemo acampamento no sertão mais cheidi água cristalina que corre no mundo, o Gerardo fazia as veiz de cozinheiro e tacou umas mandioca pá ferve, a lua cheia era  tão alumiada que nóis via certin o São Jorge amuntado no cavalo, ingual um peão de boiadeiro. 

Nóis tava tudo serelepe, cheio de vontade de alumia o mundo, de leva as boiada, quando começou  a ventar umas ventarola, e a boiada ficou meio espavorida, escutamo uns uivamento, coisa do do-lado-de-lá mesmo, Deusulivre.

Atalaiamo, atalaiamo e nada, só achemo que carecia de resagatar um  garrotinho mirrado que desgarrou um pouco de borda...  hora que o Zé Bujão pediu umas cantação de moda  pumordi  nóis tudo se acarma.

Garrei na viola, pensei na vida, no chão batido, nas coisa que o Baiano falava, mas só  achei vontade alembrando dos beijo da trigueira zóio verde, na intensão de caprichar nos musicamento, sortei um ponteado bem do ligero só pra esquentá.  

Então que a boiada fez uma abrida, foi de quando a lua se cresceu e quase despencou, olhemo de esgueio e vimu um lobisomem do graúdo saí fugido, fiqueno pasmado, os boiadero falaro que eu fiz o espatamento  do malacabado só no ponteado da viola... sei não, pumordique morrer  não faz os mistérios da vida se desanuviá némesmo?!

Making-of

 Faz parte da Causologia do Sertão  (uns par de causos intercoisado)

Quem Matou o Chico Mineiro 

http://blogdaencardida.blogspot.com/2020/11/quem-matou-o-chico-mineiro.html

O Lobisomem do Cerrado  

http://blogdaencardida.blogspot.com/2021/02/lobisomem-guara-do-cerrado.html

A Saga do desgarrado 

http://blogdaencardida.blogspot.com/2021/04/a-saga-do-desgarrado.html

No Ponteado 

http://blogdaencardida.blogspot.com/2021/04/causologia-da-roca-no-ponteado.html



Causologia do Sertão: A saga do desgarrado

O acontecido foi quando que nóis, bicho de chifre, tava levano uns boiadeiro pro norte, e passemos a noite  num pasto vistoso, enluarado,  a vida era boiazá ,  eu fui  o mais garboso da boiada,  e as tetuda tudo me corbiçava...  mai avortando no causo, o negócio se de deu logo que escutemos umas uivação.

Os boiadeiro besta,  inveiz de monta sentinela, óiprocevê, foro toca viola,  e o gaiudo aqui, já ruminado na vida, apercebeu logo que era causo de Lobisome.

Corajento que só,   larguei de canto a boiada,  pra desafiá o catingozo a vimnimim,  nóis já tava cara a cara, eu vi a bulita do zóio vermeio do bafento, fiz brabeza, bufei, carculei a mira dos chifre, e dei uma carreira nele,  só por Deus, o purguento deve di tá inté hoje correno di mim. 

Os tonto dos boiadeiro, fizero a injuesteza de espaiá por aí  que o Chico Mineiro espantou o bichão só no ponteado, num sei donde esses rapaiz tiraro essa ideia de girico. 

Por toda conta, meu destino não era ser armoço de gente,  nem janta de sombração, minha sina foi de vadiar nas beira do Araguaia e  ajudar o Jão Pedro* a arar essas terrinha pumordi por comida na barriga desses minino tudo. 

Logo a Ossuda vem no meu encalço, vai me achar,  carmo e sereno, diz que no céu dos boi, o pasto é verde e os anjo num carece de churrasco. 

Makinkg-off 

Faz parte da Causologia do Sertão  (uns par de causos intercoisado)

Quem Matou o Chico Mineiro 

http://blogdaencardida.blogspot.com/2020/11/quem-matou-o-chico-mineiro.html

O Lobisomem do Cerrado  

http://blogdaencardida.blogspot.com/2021/02/lobisomem-guara-do-cerrado.html

A Saga do desgarrado 

http://blogdaencardida.blogspot.com/2021/04/a-saga-do-desgarrado.html

No Ponteado 

http://blogdaencardida.blogspot.com/2021/04/causologia-da-roca-no-ponteado.html

Orna com 

*Os Gêmeos

http://blogdaencardida.blogspot.com/2020/10/os-gemeos.html

* A Dama do Rio por Jão Pedro

http://blogdaencardida.blogspot.com/2021/02/dama-do-rio.html

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Dama do Rio, por Jão Pedro

Despois que o Capa Preta levou o Pedro Jão* eu mudei pre’ssas paragens pumordi fugir das coisa esquisita e sem explicamento, teve jeito não.  

Diz que a enamoração começou na Santa Missa, o causo era de rapaizinho enfeitiçado por moça-flor, se for pecado, o Misericordioso que aperdoe.   Òiqueera o cabelo do cacho mais cacheado que tinha no mundo, ajuntado com um zóio preto-de-breu de fazê memo quarqué sujeito-minino se perde de rumo. 

Era uma noite dessas sem lua, que os preto-véio fala que gosta, pumordi de antigamente o escuro acolher bem os preto fugido,  acho  que é bao tamém de avistá as estrela que a lua cheia num deixa vê,  e mió ainda pra acobertá danadice de minino-homi, 

No ideamento de se encoraja, o franzino entornou um gorpe de cangibrina no bar, aprumou as carça e amuntou na canoa, que o Araguaia havia de levar na casa da zóio-de-breu, pumordi pedi a moça em namoramento. 

Nos caminho das águas, diz que brotou no bico da canôa uma luz meio esverdiçada, daquelas que alumia, mai num faz claridão, e se formou um formato de muié. 

Diveiz de se tacar logo no rio e lagar a véia do manto alumiado suzinha na canôa, falaro que o rapaizinho se tremeu tudinho, passou mijanera e peidorrera, mais que o frangote engrossou a voz e expricou: Perdoa a ousadia  Senhora Dona Dama Malassombrada, mai se hoje é meu dia, avisa que num vô nem morto, pumordi que tenho assunto de amor que careço de resorve.

O Gerardo disse que avistô um clarão no meio do rio, o Tonho disse que as água se alevantou, o Índio falô que de ordem da Dama do Rio, as águas na beirinha do Araguaia se vortaro ao contrário e truxeram o mirrado de vorta,  o Zé das Fruta acha que foi um vento soprado, o Zinho disse que viu  o barquinho vorta suzinho de contra o rio, mai ele num vale, pumordi de ser biroio**.

O que nóis sabe  é que  por aquelas horinha de sereno  teve  um  tiroteio, o pai e o tio da zóio -de-breu, mais o capataz, contra uns caçador de onça que invadiro lá as terra dele, teve morto, teve ferido, e teve violeiro que saiu avuando muntado na viola, a zoiuda continua viva e serelepe. 

O que tudo nóis viu, nas úrtema hora da noite, foi a canoa atracada, bem marradinha, cô magrelo roncando e babando drento. 

O mirrado deu a  novidade  que a  Véia Dama do Rio é moça formosa de pele preta e zoio de mel.. 

As carola disse que num passa de inventação, ôtros que a curpa da aparição foi das cangibrina, nóis, beudo de boteco num sabe nada de assombração, achemo que a Moça Dama do Rio sarvou mais um besta,  quijeitoque foi eu num posso  agaranti. 

* faz par com o causo Os Gêmeos 

http://blogdaencardida.blogspot.com/2020/10/os-gemeos.html

** do zóio vesgo, birolho.

não porque eu vi que existe, não é porque eu não vi que não existe





sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Duque


Diz que o Vô do pai escutou um choramingo perto da porteira, na certeza  que era reinação de Saci, pumirdi de ser lua cheia, foi de garrucha em punho fazê os conferimento, e vortou com um fiote de cruz-credo. 

Acomodou o bicho feio perto do fogão, que as brasa de meia vida havia de aquecer o esquisito. 

De manhã teve de acudir a Malhada numa mujidera doida, deu o que ver pra fazer o cachorrinho dente de serrote larga das teta da coitadinha. 
  
Então cumpadi, o Duque foi pegano esse formato meio cachorro, meio lobo, meio cruz-credo. 

O medonho se virou em guardião dessas terrinha, da porteira pra cá, só se ele deixar, bicho peçonhento passa varado daqui, marintensionado não ganha ousadia, até as lumbriga sumiru das barriga dos moleque.

O bichão dorme alí ó,  no pé do fogão, ele inda pula feliz se nóis pita fumo de corda quenemque o Vô pitava.  

Em noite de lua cheia os pelo do Duque fica tudin rupiado e o zóio dele brilha vermeio no terrero, quem viu num vorta pra conta não. 


Making-off 
O causo original é daqueles de beira de pista, ouvi na  Parada do Queijo em Joanópolis - Terra de Lobisomem por excelência.  A Dona Marisa e a Bia noticiaram que um certo cumpadi, em noite de lua cheia, correu da porteira até a cozinha com o cachorrão Duque no seu encalço, porém ao chegar, o cabra deu com cachorro cochilando no pé do fogão e concluiu que escapara de um lobisomem carrancudo, fez sinal de nome do pai três vezes, amém. 

*Não é porque eu vi que existe e não é porque eu não vi que não existe. 


segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

SERMÃO DE MÃE PRETA

Cheiro doce e sangue amargo,  mais uma  perna preta o Engenho tragou,  inhame, babosa, cravo e canela, o moleque guentou firme a dor da cura, despois, tadinho, amuou. 

A mãe costurou um calção vermeio sangue, e jogou-lhe no peito,  num criei minino-homi pra ser  cuitadinho. A perna que ficou lhe basta, Deus dá duas, justo para o causo de se perder uma. 

Vai zarelhar no pasto, trança as crina dos cavalo, faz  queimá as comida na panela da sinhá. Vá moleque, levante já, tome aqui o pito do vô  pro cê pitá,  vá ter com a mata, treina entrar e sair,  aprende das ervas de bem e de mal,  assusta os besta que se perde nos mato, dá uns trote bem dado  nos marintensionado embrenhado nas picadas, imita os passarinho, os rugido de onça, o sapo rachado.

 Gira livre feito um vento alevantando a poeira do terreiro, pro povo sabe que ocê é o mestre-minino da danadice e da zombação.

Trecho da obra Monteiro Lobato 
Fala logo que perdeu a perna na capoeira, pra  ninguém mangar de tu. Sua senda sempre foi atazaná,  se safa das peneira e das garrafas,  depois de véio engana até a morte, se vira em orelha de pau, aquieta grudadin num tronco, que a mata há de lhe acolher. 

Agora vai danado, vai traquiná. 

Making-off 

O Saci Pererê, só é o Saci, porque a mãe dele é a mãe dele. 

Não é porque eu vi que existe e não é porque eu não vi que não existe

o Seo Lobato, era eugenista de carteirinha, e racista de plantão, ponto muito negativo para ele por isso.

Ilustração edição de luxo 1964- Monteiro Lobato      
 

 

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

O Malvadão e a Loira do Banheiro

Diz que chapado até umas horas o cara levantou cambaleante e entre palavrões e chutes fechou a bosta da torneira do banheiro,  bastou para começar os pingamentos no chuveiro.  Puta que pariu, só fechando o registro. 
Ancorada no batente da porta, a Loira estava curiosa com as pinturas na pele do moço. 
Como você chama? Maria Augusta, e sua graça qual é?  Ricardo André, ao seu dispor, emendou ao doce galanteio, um recatado pedido de licença para vomitar  no vaso. 
Dormiu abraçadinho na privada, e a beldade ectoplasmática evaporou-se. 
O motoqueiro afiou os ouvidos para o pinga-pinga da torneira, mas não carecia,  um cheiro de flor precedia  a chegada da misteriosa.  
A cada aparição, a loiruda permitia mais ousadia rapaz.
Uma noite dessas ele lhe tirou delicadamente os algodões das narinas, antes de beijar os lábios cor de rosa. 
Diz que a do cabelo dourado deixou-se seduzir pelo o motoqueiro malvadão.


Mansão do Visconde de Guaratinguetá 

Making-off 

  Se a Ossuda do Seo Saramago se apaixonou  em As     Intermitências da Morte, a Loira do Banheiro não ficaria  de ficar patráis? 

Pintura - Maria Augusta de oliveira 
Museu Conselheiro Rodrigues Alves 
  A Loira   existiu em carne,     osso e louritude, 
nos idos de 1900. Era a rebelde filha de um Barão do café de Guaratinguetá, que fugiu de um casamento arranjado com um tiozão, e foi curtir a vida adoidado em Paris, de onde só voltou mortinha. 
Não o se sabe o que a teria ceifado, contam que a linda assombração procurava por água, por causa que desidratou de  tempo que demorou para ir para o tumbalo, o que explica o pingar das torneiras. 
Diz a lenda  que ela passou a assombrar o casarão onde vivia a família, e quando o casarão foi virado em escola, ela não se intimidou, e tacou é fogo em tudo.
Ao mistério que é por excelência um mutante insondável,  mesclaram-se outras lendas ... Já ouvi até que a Loira é ruiva. 

Não é porque eu vi que existe, e não é porque eu não vi que não existe. 


FONTES Livro História e Memória da Escola Complementar de Guaratinguetá (1906-1913), de Debora Maria Nogueira Corbage; site G1; blog Fontes Primárias no Vale do Paraíba

domingo, 25 de outubro de 2020

Os gêmeos

 Dois galego vermeio nascido na lua minguante, só pode alma errante. 

 Diz que o menino que saiu primeiro já trouxe o outro puxado pela  mão. Um Jão Pedro, o outro Pedro Jão. Dorme junto, chora junto. Piquiticos demais, vinga não. 

 Em cada ponta do berço dos mirrados, um Cosme, outro  Daminhão, haja canja, reza e manjericão.

Já rapaizinho, Pedro Jão foi desenganado, pumirdi de doença de nó nas tripa, Jão Pedro, amargado na tristeza fez da cachaça sua fortaleza. 

 O pangaré torna Jão Pedro pra casa,  zigue-zague de formiga,  empacou na poeira rasa.

O caboclo beudo*, praguejou, sacudiu  puxou ... de nada adiantou,  caiu e mirou a noite anuviada, viu o vulto do terror. 

Cas costa na terra batida , olhou traveiz pra riba, e achou quem não procurou.

Não localizei o Autor da "foto" 

O Capa-Preta amuntado na mula sem cabeça. 

O SeuCapa-Preta faz o que nessas paragens cheidi  mata-burro que rebenta, mais essa medonha que sorta  fogo pelo zóio e pelas venta? 

Minha senda é vagar misturado cos bicho feio*, espreitar na treva, montar plantão na encruzilhada, assombrar na relva molhada. 

Guardar as janela das moça-flor, que marmanjo não há de pular, brincar cos cachorro brabo, tem muita alma penada pra pastorear.

Fazer recolhe de desalmado, e recoiê um bão moço aqui, outro acolá,  pre’esse serviço de cata-jeca é bão assim, noite sem luar, tempestade rodeano no mato alto relampejano. 

O do além, em formato de moreno pantaneiro ajeitou o chapéu, encarou o galego,  esporou  a macabra e sumiu em rastro de capa que avoua e fumaça assombrada. 

O vermeio não deu conta de acompanhar, quanto mais corria, mais não saia do lugar. 

Largue-di-mão da sofrência, deixa essa dor pra lá,  onde nóis vamu tem pasto bonito, corredeira e pomar, é onde seu pai e seu vô já está. 

Ao cantar do galo, a moça meio velha chorava na porta.  

Diz que antes da tempestade desabar, o desenganado foi visto na garupa do Capa-Preta, ingual rastilho de cometa. 

Não é porque eu vi que existe,  e não é porque eu não vi que não existe. 

 Making-off 

Causo em  prosa rimada da roça, ou rima prosada, vai para Dona Mariusa que sabe maismió dos combinamento de rima. 

* Beudo, termo caipirez para: alcoolizado, chapado e bem louco.  Quem nunca? 

*Bicho feio* sempre tem ... pergunta pro Almir e pro Renato

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

BENDITA SEJA

Bendita seja a previdente alma que plantou pés de manga à beira do acostamento, nessa sombra boa a gente se escondeu do sol marvado. 

 Era caso de pneu traseiro furado,  no norte do Paraná, ou quase,  deixa o anjo da guarda trabalhar, mangalô 3 veiz,  comemos umas mangas. 

O cabra que foi chamar o guincho era a esperança derradeira de alguma hidratação. Quedê a água?   Só tinha copo de plástico para pegar no bebedouro,  colocou a moto no descanso. E porque você não trouxe??? Ara Seja, tenha dó. 

O cartaz "COM SEDE" não logrou êxito, o socorro chegou mas também não tinha água, mas havia  cidade perto, em Andirá tem oficina de moto, e borracharia, pomordi  de desmontar, montar,  remendar e se fartar com toda água do posto de gasolina.

Lá,  paramos as motocas na sombrinha da borracharia, em frente  a oficina  Moto Zão, a turma apresentou as ferramentas e o Zão  sacou a roda traseira, trabalheira danada... 

Eu que não sei tirar roda,  já me acabava em água e suco de laranja, quando ele se achegou, carinha suja de graxa,  jeito meio amuado, cavucando uma chance,  curioso que só. 

Toma suco menino, tá muito calor, ele aceitou. 

Porque vocês não viajam de noite que não é tão quente? Está vendo aqueles quatro tiozinhos ali do outro lado da rua, desmontando a moto branca? Eu viajo com eles, você acha que algum deles enxerga alguma coisa de noite??? O menino riu e fez que não com a cabeça. Esperto. 

Moça, quantos cavalos tem a sua moto? Cavalo eu não sei não, serve cilindrada? Serve.  Tem 1340. E essa?  E essa?  Embreage dura né moça?!

 Da onde vocês tão vindo? Que horas sairu? E tão ino onde? 

Vamos perto de Mauá da Serra. Fez cara  de entendido, mas não era isso que ele queria saber de verdade. 

Vocês num para nunca? Como assim não para nunca? Ué, assim, sempre ino de um lugar no outro e depois no outro... 

Concluí que o curiosinho,  pensava que éramos nômades MadMax e que vivíamos em busca de aventuras, gasolina, e água, (até que não seria ruim). Não sendo boa mentirosa, solapei as ilusões do menino.  

Paramos sim, aquele ali ó, é meu marido,  a gente tem casa, emprego e cachorros, ai que saudades... 

A carinha dele se iluminou.  Transformei algo intangível em um sonho realizável.  Do que você trabalha? De coisa de escritório, e você estuda? Estudo sim senhora, estou no terceiro ano. Eu tenho um cachorro também,  e meu pai trabalha aqui na borracharia eu ajudo ele .... blá... blá ... blá 

A moto ficou pronta, perái gente, vou me despedir do menino... vai logo... ôw... ele foi o cara mais legal com quem eu conversei nessa viagem!!! Nooooosssa acabou com a gente. Tchau Eduardo! Um leve toque de mão feito soquinho selou a amizade. 

Partimos, porém  22 km depois, perto de outra sombrinha, o pneu do Marcelo furou de novo, e a gente sem água outra vez , não teve piada que salvasse, e foram muitas as patifarias de milho e corda para animar o amigo. Ele foi com o guincho, e nós seguimos no batidão carburado. 

A tradição que remonta aos idos de 1903,  reverbera: viagem azeda ninguém esquece. 

A moto foi para uma oficina em Londrina e a gente fez um pitstop lá, a jornada findou alumiada  pela lua cheia, depois de 15 horas na pista.

 O acesso à pousada era uma estradinha cascalhada do capiroto, e eu cansada demais para xilicar total, ralhei  mais que panhead empacadeira, mas cheguei. 

O pessoal do 1º Only Evo Brasil que acompanhou nossa sina pelo whattsap e a equipe do Recanto Pinhão nos receberam com  comida boa e muita prosa.

 A Dani  (da Dani Motos ) e o Cleiton (da Dani), dividiram o chalé com a gente.

O Marcelo e o Alexandre desavisados, acamparam ao lado do galinheiro e acordaram cedo, culpadas essas galinhas d’angola. 

A Dani fez correções pontuais, são cachorrinhos d’angola, eu concordei. 

No sábado me taquei na cachoeira, dormi e comi até morrer, mais gente fez o mesmo. 

 A tarde chegou de mansinho, teve show de Blues, muita lorota,  confraternização, e comilança. 

As evos  mais legais do mundo estavam lá vertendo óleo na grama. Pense uma visão do paraíso, tudo aqueles pisca-alertas ligados e nenhum carburador magoado. 

Teve dentista  violeiro que sacou a viola do sissy bar e esbanjou  moda de viola e outros musicamentos, um causo esquisito de camisola azul na penumbra, e outro de tumba que aresponde, num sei só sei,  que foi assim.  

Eu que sou malvadona, tomei chá de cidreira e só recolhi quando a música acabou.

Diz a lenda que a estradinha cascalhada from hell, causou um leve mal estar em alguns marmanjos, que as minas bikers muito fodas passaram numa boa e ... diz ainda que uma encardida fez feio quando a moto corcoviou, e  hipoteticamente teria comido um pouco de poeira, feito roxo nas canelas e sofrido  de "baixa moto estima" uns 137,5 km, antes de se recuperar do drama.  Ainda especulando, pode ser que o Cangaceiro quando a viu espatifada no chão, teria tombado levemente e que umas franjas de plataforma se fizeram vassoura em terra vermeia. 

Um por imperícia, outro por solidariedade. Iquenhequisabe? 

A pontinha do manete quebrado,  prova material inconteste de que tal evento realmente teria acontecido, até o momento não foi localizada no perímetro. 

Ela talvez jaz nas profundezas do bolso de uma jaqueta. R.I.P. pontinha quebrada, e não se fala mais nisso. 

Tudo coisa que não dá para não lembrar.

sábado, 22 de agosto de 2020

MOÇA DA ESTRADA

O causo é que  a vontade de passar a madrugada acalentado por formosa morena  fez o cabra engastalhar o caminhão no barro até as tampas.  

Toda a chuva do juízo final fora derramada naquelas paragens,  no retrovisor enlameado reluziu uma luz azul.

Um caminhão emparelhou, Fique sereno seu moço que vou lhe tirar desse cortado, sorriu a Moça Caminhoneira.

Ajude aqui menino a prender o cabo, vem ligeiro antes que o mundo se acaba em água e noite sem lua.

Diquejeitoquifoi, ninguém sabe, ninguém viu.

Encontro co senhor, ali no posto mais adiante, engatou marcha , e arrancou em trovoada. 

Na duvidança, o desatolado tentou acompanhar, mas a Dona da Noite não largou rastro patraís. 

Ancorado no posto perguntou por ela, Fio do céu, o rapaz do posto mostrou o recorte de jornal desbotado,  o cabra confirmou em desalento. 

Foi trombada feia por essas bandas, diz que de quando em quando a Moça socorre os companheiros de estrada, e depois vorta avuando pro lado de lá, coisa mai linda que já passou aqui nessa lonjura de mundo, pense moço um caminhão, carregado de estrela caía,  tudinho iluminado de azur, caquela morenona no piloto, coisa mai linda.  


Não é porque eu não vi que não existe,  e não é porque eu vi que existe.

Making-Off 

1ª da Série  Assombração Empoderada - Blog da Encardida 2020 

Descaradamente inspirada no Lado B - Moça Caminhoneira - (Carlos Cézar e José Fortuna)  do LP Os Cowboys Andarilhos - Carlos Cézar e Cristiano -  1982

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

TINHOSA

 Êita palavra tinhosa, ferramenta do pensamento escorregadio, passano ligeira,  amassadinha no trem, esparrama pelos trilhos, nem aporta na estação. 

Quijeitoqui o Poeta faz para verter esse combinamento de palavra bonita, que orna uma ca outra, virada em escrita, tudo ali, feito caminho de formiga bêbada, tinta deslizada no papel? 

Iquenhequisabe, se ele chama no samba e elas chegam em cachoeira, será que dasveiz  minguam ao esplendor sol”?  


Vemnimim palavra que orna, apurrinha meu sono também, baixa na sopa de letrinha, faz manha na borra do café, vem no formato de apocalipse, do jeito que ocê quisé.

Transborda em história de beira de estrada, visita o pra lá do acostamento, e torna em causo de assombração, prosa de caipira,  ou história pra boi dormir. Só vemnimim. 

 

Making-off : Humilde homenagem ao mestre dos magos das palavras Paulo César Pinheiro que vi  na TV Cultura um dia desses. 



quinta-feira, 2 de julho de 2020

Causo de Milho

Rescendeu na cozinha o cheiro do milho cozido e revirou-me as gavetas da memória.

Foi uma viagem de carro com meu avô e avó, a tia Val , a Léa e devia ter mais alguém.

Era  depois do almoço, no sítio, todas as tias irmãs da Vó sabiam meu nome e de quem eu era filha, a mesma cara, a mesma teimosia ... eu é que não sabia a cara e a teimosia delas.


Vô porque elas estão ralando milho? Pamonha menina, para fazer pamonha. O que a historiadora não praticante que vos escreve classificaria finamente como Ritual rural feminino do milho, estava mais para o forfé do milho.

Era milho pela cozinha toda, lembro dos óculos das tias respingados de milho, cabelos enmilharados , avental vertendo milho, elas riam umas das outras, enquanto evocavam lorotas e as desgraceiras dos ralamentos do milho no ano passado, tudo cheirava a milho cozido e ninguém me deixou ralar milho nenhum.

Eu que era pequena e não gostava de café, perdi a chance de acompanhar a melhor pamonha de todos os tempos com o café mais maravilhoso do velho Oeste paulista.

Cavuquei e ainda resgatei uns fiapos de lembrança:
O hotel, meio pensão, acho que perguntei de quem era aquela casa e todo mundo riu.
A estação de trem antiga talvez em Arcadas onde tiramos uma foto.
A Léia sacolejando a ponte pênsil que transpunha o rio Pardo e da placa que alertava para não fazê-lo

*Perguntar para a tia Val mais coisas da viagem seria uma trapaça vil e imperdoável, maismiódibão é deixar cheiro do milho cozido preencher as lacunas.

Mesmo assim eu perguntei, a tia debochada  rebateu: Você Nanica, era muito nova para se lembrar e eu  talvez  meio velha para tanto. 

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Xícara Branca

 Bom dia moço, um café pufavor.
O moço atarefado areparou na formosura, e mandou um sorriso de galanteio.
Pois não morena, serviu rápido o café, em um copinho de pinga.
As branquinhas tudo servidas em alvas xícaras, e a preta no copo de pinga?
Encarou o moço e deu as costas ao café, ia elegante amuntada do seu orgulho negro.
Êi morena, volta aqui por favor,  me perdoa, armou a maior cara de gato do Shrek, e ofereceu o café em uma fumegante xícara branca com pires e colherinha. Açucar ou Adoçante?
A preta bonita dessa vez aceitou as desculpas e o café.


*Para M. Madalena

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Óia o Trem

Nos antecipamentos de  passar, diz que um fumacê branco abre os caminhos na noite.
A neblina ligeirinha se almolda nos trilhos de jeito que vem se abrino tudinha pr'ele passar

Quem vem do Além-Graxa é o Trem Fantasma, a culpada foi a marvada da caldeira, que num último ato de rebeldia se explodiu em ferro tinindo e labaredas vermeias, carregando consigo a alma do trem  mais  meia dúzia nobres almas ferroviárias.

A Locomotiva Macabra, vem do 13º túnel, botano fogo pelas ventas e graceja nos trilhos de novo,  nela os finados, de apego com estrada de ferro, compromissados eternos na luta de domar a caldeira em fúria, das veiz  nem sabem que jazem todos no cemitério de Paranapiacaba. 

Na duvidança, fazes a molecagem :  pões a moedinha no trilho, não sejes mão de vaca e colocas logo a de 1 Real, é garantido que a recuperas, de onde vem e pra onde vai o Trem Sobrenatural, os dinheiros carecem de serventia.

 Não é porque eu não vi que não existe e não é porque eu vi que existe.

* In Memorian - Jacaré *



terça-feira, 10 de dezembro de 2019

CABEÇA DA ANTA

Aí a gente encontra o Serginho em Sorocaba, que eles vão descer pela Serra da Cabeça da Anta.
Serra de quem ? 
Da AAAAAnta!
Tá. 
Assim os últimos dos morning-riders acordaram o coitado do despertador, optamos pelo Rodoanel, e pegamos a Caslelo Branco,  em Sorocaba paramos para esperar os meninos, esse povo também é morning rider e não se fez de rogado. 

Já chegou o Serginho falando do "cocrete" da Cabeça da Anta, que a gente vai tomar café em Tapiraí na Cabeça da Anta e comer o croquete... porque o croquete...  o Sabath reclamando do Serginho que só pensa em croquete e o  Adilsinho, que já passou por ali de tudo quando foi jeito, puxou o trem, e deu as dicas  da estradinha.

O Roteiro combinado é facinho,  de Sorocaba só seguir sentido Pilar do Sul -Piedade-Tapiraí-Juquiá de Juquiá os meninos seguem  na BR 116  para o Sul e eu e o meu Cangaceiro voltamos para casa pela Serra do Café. 

Piedade é conhecida como o Portal das Águas, ôw não dá nem para molhar o pé em uma das cachoeiras? Sendo voto vencido, nem tentei a sorte, volto outro dia. 

A estradinha é daquelas que vai enroscando na Mata Atlântica, muita curva, tudo pista simples, asfalto úmido,  sem espaço para arrependimentos, mas o visual é muito lindo, uma judieira não haver mirante ou quase nenhum acostamento. 

Na Entrada de Tapiraí vi a placa "Capital do Genibre" e meu coração deu até um geladinho, eu já queria parar e encher os alforges de gostosuras gengibrentas... nem deu tempo de consultar a base aliada, tocamos em frente... ai meu pai, volto outro dia também. 

Enquanto eu fazia as curvinhas  só no êêêê boi, torcendo para a minha linda Marcelina desviar dos buracos por conta própria, fomos ultrapassados loucamente por uma turma de Big-Trails, deve de brotar pulga no fiofó deles quando avistam umas HDs jogando óleo na pista né?!?  Nem roguei praga.

Só de xeretice, o nome "oficial” da região  da Serra da Cabeça da Anta é Sertão da Serra de Paranapiacaba a estrada é a SP-79, iquenhequesabia. 

Paramos  no restaurante Cabeça da Anta, por causa do Serginho, do croquete e porque é daquelas paradas de beira de pista do jeito que a gente adora.  

Em frente ao restaurante está a Cabeça da Anta em forma de fonte, que foi instalada em 1936, e tem uma cascatinha ao lado (deu até comichão).

Diz que no começo do Sec. XX uns cavaleiros passavam pela área e houve um desmoronamento e apareceu lá no meio uma anta, ou a cabeça dela ... como ali tinha uma fonte batizaram o lugar de "bica da anta", há também a tecla sap tupi-guarani que traduz Tapiraí como "terra da anta", num sei só sei que foi assim.

Logo já atravessamos para beber a água sagrada da Anta,  que cura mau olhado,  pedra no rim, só não cura vontade de comer "cocrete".

Tira o retrato nosso aí! Rapaiz já pensou a conta de água daqui!
A Anta parece que se mancou do desperdício e parou de jorrar aquela aguaceira toda morro abaixo, o povo que chegou lá de galão em punho saiu magoado, e a gente entrou de fininho no restaurante, pensando em tomar o último café antes do tsunami... 

O moço que serviu o café com croquete disse que nunca viu a cabeça da Anta secar... eu não como croquete, e pedi a "cueca virada" (crostoli para os mais italianos) e ainda levei umas para o lanchinho da tarde. 

Logo que ligamos nossas traquitanas, a água retornou à fonte, mistérios... seguimos até o pé da serra em Juquiá, abastecemos e despedimos dos amigos.

Desapeguei de ver as horas, da previsão do tempo, não fiz conta prévia da kilometragem e me diverti que nem que gente grande.
 


* O Serginho ainda ficou devendo o passeio na Serra da Macaca, ou sei lá eu  qual outro bicho.

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Terra de Lobisomem

Nascida e criada na formosa Serra da Mantiqueira,  São João do Curralinho desde sempre deu guarita à assombração e cachoeiras,  é passeio bom para salvar o domingo.

Antes  dos findamentos da I Grande Guerra é que o nome do lugar  mudou para Joanópolis,  visto que o padroeiro já era o São João e por lá passou muito João ilustre : Coronel, construtor, o moço que doou o terreno para erigir o cidade,  fogueteiro, oficial de justiça...  e algum lobisomem,  assim sendo, acertado foi o nomeamento.

Para chegar lá, o caminho mais bonito, consiste não dar bola para o google maps, sair logo da Fernão Dias, e já entrar para Bom Jesus dos Perdões/ Piracaia, a estradinha selada caminho da carroça é cheidicurva,  Mantiqueira já tô te vendo, Serra do Lopo, tô ino aí!

Rodeada de serra por todo lado, a terra do Lobisomem, onde nasce o rio Piracicaba. preserva bastante mata nativa,  é no farejo do perfume de mato orvalhado, seguindo pela Estrada da Cachoeira que chega na Cachoeira dos Pretos, lá tem de comer, de beber, de dormir, de aventurar e de nadar.

Diz que o nome da queda d'agua é pumordi dos escravos,  que honrosamente, lá de cima se tacaram na discordância de tão aviltante condição... a versão mais fitness da história remonta à família de origem portuguesa Preto de Oliveira, que batizou a cascata de mais de 150 metros de altura e o bairro.

Depois do banho de rio, só de zoiudice foi um café com bolo de milho... ai meu pai...

Na volta, valeu esfriar os motores das motocas  e visitar a Parada do Queijo, onde  tem a Dona Marisa e a Bia,  boas de prosa,  elas provaram que causo  de assombração bão mesmo é de  beira da pista,  tem causo de saci virado em nenê que morde, de parente que ao passar a porteira, correu do cachorrão Duque, mas estava mesmo é com o Lobisomem no encalço, de lago que se alumia no meio da escuridão, de converse dos vultos assombrados na estradinha... acompanham os mistérios o cafezinho caipira no fogão à lenha e delícias da roça, difícil mesmo é lembrar do nome e esquecer o gosto do Queijo  do Lobisomem curado nas taubinhas em semana de lua cheia (tá... inventei do peludo pra frente...  o nome certo do queijo é Araxi na Madeira), mas a taubinha é verdade e o queijo é do bom.

Em Terra do Lobisomem,  de tanto  o peludo mostrar as feições nas porteiras, nos  terreiros, no pé da serra,  nas estradinhas de chão, na beira do rio,  no galinheiro, na mata,  na praça e em tudo quanto é canto,  o povo de lá  tratou de fazer amizade com o bichão.

Não é porque eu não vi que não existe, e não é porque eu vi que existe.


https://www.joanopolis.com.br/sobre-joanopolis.html

https://www.joanopolis.com.br/o-lobisomem.html

https://www.joanopolis.com.br/historia/o-porque-joanopolis-e-a-cidade-de-joao.html

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Memórias da escrivaninha

O mistério de estimação da molecada da casa era a escrivaninha do Seu Joãozinho Eletricista.
Tínhamos ganas de revirar às escondidas as gavetas e devassar aquela papelada toda, haveriam fotos antigas? Segredos? Esquemas elétricos dignos de Nikola Tesla...mini engenhocas causadoras de choque? Iquenhequesabia?
Os meninos queriam achar foto de mulher pelada e mapa do tesouro, porém, nunquinha houve colhões.
Em idade avançada, foi o Seu Joãozinho alumiar outras paragens, e ficou a escrivaninha.
Chamou a atenção, na última gaveta, uma pasta de plástico, eu, historiadora não praticante, já mandei logo tirarem o zóio, fiz refúgio no outro sofá e bisbilhotei os arquivos da pasta marrom, os avós mortinhos que me perdoem, vi tudo.
Entre outros achados arqueológicos, compunham o acervo:
Recortes de jornal, em especial um com a foto do Seu Joãozinho, do Seu Ercílio e mais uns camaradas bigodudos; bilhetes que marcavam reuniões secretas, talvez os conspiradores mais idealistas do Cambuci; correspondências bem humoradas do amigo, que presumo eu, combateu na Revolução Constitucionalista de 32, e confessava uma total ausência de talentos bélicos; cartas da Itália para o "Bisô" com o timbre da Barbiere di Rotonda; uma solicitação de transferência da escola particular para a pública, onde Seu Joãozinho findou seus estudos elétricos, a fim de exercer nobre ofício de alumiar, chorei e pronto.
Tinha ainda uns dobradinhos de papel amarelo-folha-dura, que compunham uma trilogia de cartas:
Na primeira, com letra de formiga desencaminhada, e gramática sofrida, Belinha da Fazenda Esmeralda declarava saudades e amor.
A segunda em apaixonada caligrafia magistral, Joãozinho Eletricista da Capital prontamente respondia saudades apocalípticas e amor por toda vida.
Na terceira, a impetuosa caipira, mandou a resposta da resposta que não recebeu e esculhambou.
Talvez explica melhor expor a cronologia da coisa toda:
Carta da Belinha, 11-03-1946
" .... tenho saudade ... a Helena até fica brava comigo porque só falo de você ...."
Em seguida, o suposto rascunho da carta do Joãozinho - sem data, à lápis, era tanto dengo que até dava choque:
".... Relembro os doces momentos em que estamos juntos... " "... Belinha volte o quanto antes... "
Carta da Belinha 16-03-1946 (aquela esculhambando)
"Estou cançada de esperar a resposta da carta que mandei dia 11 por isso quero saber se e falta de tempo ou mal vontade e assim que voce gosta de mim?...... " ... " vou no correio todos os dias só a espera de uma carta e volto muito triste ando 2 quilometros e nada...
Especulo que as cartas seguiam da Capital via algum cata-jeca até aportar em São José do Rio Pardo, talvez na Estação Paula Lima, onde minha impaciente futura avó superestimou a agilidade dos Correios.
Aposto que meu avô respondeu, mas a carta extraviou, e por galhofa ele guardou o rascunho entre as duas outras cartas.
Naquela tarde de profanação, foram lembrados também os quitutes sem igual e o peculiar pavio curto da D. Belinha.