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quinta-feira, 15 de abril de 2021

Causologia do Sertão: Lobisomem-Guará

Eu mesmo, Zé Lupino Versipélio Guerra, na carmaria da minguante, antes de entregá meus osso pra esse chão, hei  de fazer os explicamentos da verdade verdadeira.

O causo foi mar contado, e  marcontamento, esparrama mai que pé de chuchu,  iquenhéque vai dá crença num véio guará ?

De toda forma o  negócio foi no tempo que o diabo era minino, e nóis era tudo moço frondoso,  num era bonito ser feio, os home  mirava as garrucha nos Guará,  e inté os marmanjo tinha medo de sombração. Careço de saber se era mió ou pió. 

A verdade dos acontecido é que quando me virei no bichão,  mais por gosto que por obrigação, eu tinha fome de bicho, fome de bicho todo mundo tem, o que muda é só o jeito de nóis se servi. 

Já era sabido da comitiva acampada, se alumiano na serena nas beiras do São Miguel.

Montei espreita  nas pedra, era uma boiada  vistosa,  minhas fuça  farejava o cheiro bão de  mandioca cozida.   

Nos percebimento que  forasteiros tinha apreço nos cachorro, não fosse noite de viração, nóis inté podia toma uma cachaça junto,  mai o ofício da assombração pertence aos mistérios do Noturno,  já  o ofício do boiadeiro é leva a boiada, nóis num tava lá no sertão eterno pumordi de fazê amizade, então, só de treino espreitei eles. 

Os pobrema é que os moço virado em lobisomem tem uma vontadade marvada de uivá, nóis, cheididente, não se guenta. 

Deve di ser   pumordi da redonda lá em cima descer ninóis as bença da Lua-Mãe, nessa hora os sem-pelo escuta nossa algazarra e  toma tento de fechar os galinheiro e guardar as criação. 

Marquei de mijo os canto de sempre, e despois dos uivamentos,  ericei os pelos e logo mirei no novilho miúdo que desgarrou,  pumordi de refrescar  aguela no sangue fresco do cuitadinho.

  Na hora da servageria,  o tar da viola tascou  um pontiado dos mai bonito do mundo,  fio de Deus, a chama da fogueira refletia no zóio do violeiro, os dedo dele ficaro invisivi de tanta ligereza. 

 Assombração que não é besta,  sabe pra quem aparece, aproveitei o distraimento deles, e saí no encalço do novilho, bem na hora de me farta, putaqueparir, pequei um baita istrepi no pé. 

Saí galopano varado de dor, me esbarrei aqui e ali, coisa pouca, e sumi no mato. 

Ai,  tá feito, pra os da comitiva  espaiá  que o Chico Mineiro espantou o Lobisomem do Cerrado só no pontiado da viola. 

Tudo lorota e marcontamento desses boiadeiros, que reiva que deu.  

Makink-off 

 Faz parte da Causologia do Sertão  (uns par de causos intercoisado)

Quem Matou o Chico Mineiro 

http://blogdaencardida.blogspot.com/2020/11/quem-matou-o-chico-mineiro.html

O Lobisomem do Cerrado  

http://blogdaencardida.blogspot.com/2021/02/lobisomem-guara-do-cerrado.html

A Saga do desgarrado 

http://blogdaencardida.blogspot.com/2021/04/a-saga-do-desgarrado.html

No Ponteado 

http://blogdaencardida.blogspot.com/2021/04/causologia-da-roca-no-ponteado.html

 


Causologia do Sertão: No ponteado

 No Firmamento nóis tudo fica esperano a hora do sertão chama de vorta,  morri de morte matada, vivê morto é bão tamém, o duro é a sodade das moda de viola, das moça, e das comitiva.  

Crêdito que o ocê,  na sua santice de anjo, deve di sabe que eu fui boiadeiro de ofício e violeiro, pumordi que o Divino Deus me plantou essa faísca no peito, arranjei uma viola cô nono do primo do Padre de São Gotardo das Gerais,  aprendi de orvido e tomei gosto na coisa, logo apelidaro eu de Chico Mineiro, violeiro e boiadero,  esse negócio das moça se encanta nimim, tudo obra da viola.

Eu tocava quarqué boiada e quarqué moda: chorosa, sardosa, contente, nas moda corno não tenho apreço, mais se os traído pedia, cantava tamém. 

Daquela vez,  finquemo acampamento no sertão mais cheidi água cristalina que corre no mundo, o Gerardo fazia as veiz de cozinheiro e tacou umas mandioca pá ferve, a lua cheia era  tão alumiada que nóis via certin o São Jorge amuntado no cavalo, ingual um peão de boiadeiro. 

Nóis tava tudo serelepe, cheio de vontade de alumia o mundo, de leva as boiada, quando começou  a ventar umas ventarola, e a boiada ficou meio espavorida, escutamo uns uivamento, coisa do do-lado-de-lá mesmo, Deusulivre.

Atalaiamo, atalaiamo e nada, só achemo que carecia de resagatar um  garrotinho mirrado que desgarrou um pouco de borda...  hora que o Zé Bujão pediu umas cantação de moda  pumordi  nóis tudo se acarma.

Garrei na viola, pensei na vida, no chão batido, nas coisa que o Baiano falava, mas só  achei vontade alembrando dos beijo da trigueira zóio verde, na intensão de caprichar nos musicamento, sortei um ponteado bem do ligero só pra esquentá.  

Então que a boiada fez uma abrida, foi de quando a lua se cresceu e quase despencou, olhemo de esgueio e vimu um lobisomem do graúdo saí fugido, fiqueno pasmado, os boiadero falaro que eu fiz o espatamento  do malacabado só no ponteado da viola... sei não, pumordique morrer  não faz os mistérios da vida se desanuviá némesmo?!

Making-of

 Faz parte da Causologia do Sertão  (uns par de causos intercoisado)

Quem Matou o Chico Mineiro 

http://blogdaencardida.blogspot.com/2020/11/quem-matou-o-chico-mineiro.html

O Lobisomem do Cerrado  

http://blogdaencardida.blogspot.com/2021/02/lobisomem-guara-do-cerrado.html

A Saga do desgarrado 

http://blogdaencardida.blogspot.com/2021/04/a-saga-do-desgarrado.html

No Ponteado 

http://blogdaencardida.blogspot.com/2021/04/causologia-da-roca-no-ponteado.html



Causologia do Sertão: A saga do desgarrado

O acontecido foi quando que nóis, bicho de chifre, tava levano uns boiadeiro pro norte, e passemos a noite  num pasto vistoso, enluarado,  a vida era boiazá ,  eu fui  o mais garboso da boiada,  e as tetuda tudo me corbiçava...  mai avortando no causo, o negócio se de deu logo que escutemos umas uivação.

Os boiadeiro besta,  inveiz de monta sentinela, óiprocevê, foro toca viola,  e o gaiudo aqui, já ruminado na vida, apercebeu logo que era causo de Lobisome.

Corajento que só,   larguei de canto a boiada,  pra desafiá o catingozo a vimnimim,  nóis já tava cara a cara, eu vi a bulita do zóio vermeio do bafento, fiz brabeza, bufei, carculei a mira dos chifre, e dei uma carreira nele,  só por Deus, o purguento deve di tá inté hoje correno di mim. 

Os tonto dos boiadeiro, fizero a injuesteza de espaiá por aí  que o Chico Mineiro espantou o bichão só no ponteado, num sei donde esses rapaiz tiraro essa ideia de girico. 

Por toda conta, meu destino não era ser armoço de gente,  nem janta de sombração, minha sina foi de vadiar nas beira do Araguaia e  ajudar o Jão Pedro* a arar essas terrinha pumordi por comida na barriga desses minino tudo. 

Logo a Ossuda vem no meu encalço, vai me achar,  carmo e sereno, diz que no céu dos boi, o pasto é verde e os anjo num carece de churrasco. 

Makinkg-off 

Faz parte da Causologia do Sertão  (uns par de causos intercoisado)

Quem Matou o Chico Mineiro 

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O Lobisomem do Cerrado  

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A Saga do desgarrado 

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No Ponteado 

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Orna com 

*Os Gêmeos

http://blogdaencardida.blogspot.com/2020/10/os-gemeos.html

* A Dama do Rio por Jão Pedro

http://blogdaencardida.blogspot.com/2021/02/dama-do-rio.html

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Dama do Rio, por Jão Pedro

Despois que o Capa Preta levou o Pedro Jão* eu mudei pre’ssas paragens pumordi fugir das coisa esquisita e sem explicamento, teve jeito não.  

Diz que a enamoração começou na Santa Missa, o causo era de rapaizinho enfeitiçado por moça-flor, se for pecado, o Misericordioso que aperdoe.   Òiqueera o cabelo do cacho mais cacheado que tinha no mundo, ajuntado com um zóio preto-de-breu de fazê memo quarqué sujeito-minino se perde de rumo. 

Era uma noite dessas sem lua, que os preto-véio fala que gosta, pumordi de antigamente o escuro acolher bem os preto fugido,  acho  que é bao tamém de avistá as estrela que a lua cheia num deixa vê,  e mió ainda pra acobertá danadice de minino-homi, 

No ideamento de se encoraja, o franzino entornou um gorpe de cangibrina no bar, aprumou as carça e amuntou na canoa, que o Araguaia havia de levar na casa da zóio-de-breu, pumordi pedi a moça em namoramento. 

Nos caminho das águas, diz que brotou no bico da canôa uma luz meio esverdiçada, daquelas que alumia, mai num faz claridão, e se formou um formato de muié. 

Diveiz de se tacar logo no rio e lagar a véia do manto alumiado suzinha na canôa, falaro que o rapaizinho se tremeu tudinho, passou mijanera e peidorrera, mais que o frangote engrossou a voz e expricou: Perdoa a ousadia  Senhora Dona Dama Malassombrada, mai se hoje é meu dia, avisa que num vô nem morto, pumordi que tenho assunto de amor que careço de resorve.

O Gerardo disse que avistô um clarão no meio do rio, o Tonho disse que as água se alevantou, o Índio falô que de ordem da Dama do Rio, as águas na beirinha do Araguaia se vortaro ao contrário e truxeram o mirrado de vorta,  o Zé das Fruta acha que foi um vento soprado, o Zinho disse que viu  o barquinho vorta suzinho de contra o rio, mai ele num vale, pumordi de ser biroio**.

O que nóis sabe  é que  por aquelas horinha de sereno  teve  um  tiroteio, o pai e o tio da zóio -de-breu, mais o capataz, contra uns caçador de onça que invadiro lá as terra dele, teve morto, teve ferido, e teve violeiro que saiu avuando muntado na viola, a zoiuda continua viva e serelepe. 

O que tudo nóis viu, nas úrtema hora da noite, foi a canoa atracada, bem marradinha, cô magrelo roncando e babando drento. 

O mirrado deu a  novidade  que a  Véia Dama do Rio é moça formosa de pele preta e zoio de mel.. 

As carola disse que num passa de inventação, ôtros que a curpa da aparição foi das cangibrina, nóis, beudo de boteco num sabe nada de assombração, achemo que a Moça Dama do Rio sarvou mais um besta,  quijeitoque foi eu num posso  agaranti. 

* faz par com o causo Os Gêmeos 

http://blogdaencardida.blogspot.com/2020/10/os-gemeos.html

** do zóio vesgo, birolho.

não porque eu vi que existe, não é porque eu não vi que não existe





sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Duque


Diz que o Vô do pai escutou um choramingo perto da porteira, na certeza  que era reinação de Saci, pumirdi de ser lua cheia, foi de garrucha em punho fazê os conferimento, e vortou com um fiote de cruz-credo. 

Acomodou o bicho feio perto do fogão, que as brasa de meia vida havia de aquecer o esquisito. 

De manhã teve de acudir a Malhada numa mujidera doida, deu o que ver pra fazer o cachorrinho dente de serrote larga das teta da coitadinha. 
  
Então cumpadi, o Duque foi pegano esse formato meio cachorro, meio lobo, meio cruz-credo. 

O medonho se virou em guardião dessas terrinha, da porteira pra cá, só se ele deixar, bicho peçonhento passa varado daqui, marintensionado não ganha ousadia, até as lumbriga sumiru das barriga dos moleque.

O bichão dorme alí ó,  no pé do fogão, ele inda pula feliz se nóis pita fumo de corda quenemque o Vô pitava.  

Em noite de lua cheia os pelo do Duque fica tudin rupiado e o zóio dele brilha vermeio no terrero, quem viu num vorta pra conta não. 


Making-off 
O causo original é daqueles de beira de pista, ouvi na  Parada do Queijo em Joanópolis - Terra de Lobisomem por excelência.  A Dona Marisa e a Bia noticiaram que um certo cumpadi, em noite de lua cheia, correu da porteira até a cozinha com o cachorrão Duque no seu encalço, porém ao chegar, o cabra deu com cachorro cochilando no pé do fogão e concluiu que escapara de um lobisomem carrancudo, fez sinal de nome do pai três vezes, amém. 

*Não é porque eu vi que existe e não é porque eu não vi que não existe. 


segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

SERMÃO DE MÃE PRETA

Cheiro doce e sangue amargo,  mais uma  perna preta o Engenho tragou,  inhame, babosa, cravo e canela, o moleque guentou firme a dor da cura, despois, tadinho, amuou. 

A mãe costurou um calção vermeio sangue, e jogou-lhe no peito,  num criei minino-homi pra ser  cuitadinho. A perna que ficou lhe basta, Deus dá duas, justo para o causo de se perder uma. 

Vai zarelhar no pasto, trança as crina dos cavalo, faz  queimá as comida na panela da sinhá. Vá moleque, levante já, tome aqui o pito do vô  pro cê pitá,  vá ter com a mata, treina entrar e sair,  aprende das ervas de bem e de mal,  assusta os besta que se perde nos mato, dá uns trote bem dado  nos marintensionado embrenhado nas picadas, imita os passarinho, os rugido de onça, o sapo rachado.

 Gira livre feito um vento alevantando a poeira do terreiro, pro povo sabe que ocê é o mestre-minino da danadice e da zombação.

Trecho da obra Monteiro Lobato 
Fala logo que perdeu a perna na capoeira, pra  ninguém mangar de tu. Sua senda sempre foi atazaná,  se safa das peneira e das garrafas,  depois de véio engana até a morte, se vira em orelha de pau, aquieta grudadin num tronco, que a mata há de lhe acolher. 

Agora vai danado, vai traquiná. 

Making-off 

O Saci Pererê, só é o Saci, porque a mãe dele é a mãe dele. 

Não é porque eu vi que existe e não é porque eu não vi que não existe

o Seo Lobato, era eugenista de carteirinha, e racista de plantão, ponto muito negativo para ele por isso.

Ilustração edição de luxo 1964- Monteiro Lobato      
 

 

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

O Malvadão e a Loira do Banheiro

Diz que chapado até umas horas o cara levantou cambaleante e entre palavrões e chutes fechou a bosta da torneira do banheiro,  bastou para começar os pingamentos no chuveiro.  Puta que pariu, só fechando o registro. 
Ancorada no batente da porta, a Loira estava curiosa com as pinturas na pele do moço. 
Como você chama? Maria Augusta, e sua graça qual é?  Ricardo André, ao seu dispor, emendou ao doce galanteio, um recatado pedido de licença para vomitar  no vaso. 
Dormiu abraçadinho na privada, e a beldade ectoplasmática evaporou-se. 
O motoqueiro afiou os ouvidos para o pinga-pinga da torneira, mas não carecia,  um cheiro de flor precedia  a chegada da misteriosa.  
A cada aparição, a loiruda permitia mais ousadia rapaz.
Uma noite dessas ele lhe tirou delicadamente os algodões das narinas, antes de beijar os lábios cor de rosa. 
Diz que a do cabelo dourado deixou-se seduzir pelo o motoqueiro malvadão.


Mansão do Visconde de Guaratinguetá 

Making-off 

  Se a Ossuda do Seo Saramago se apaixonou  em As     Intermitências da Morte, a Loira do Banheiro não ficaria  de ficar patráis? 

Pintura - Maria Augusta de oliveira 
Museu Conselheiro Rodrigues Alves 
  A Loira   existiu em carne,     osso e louritude, 
nos idos de 1900. Era a rebelde filha de um Barão do café de Guaratinguetá, que fugiu de um casamento arranjado com um tiozão, e foi curtir a vida adoidado em Paris, de onde só voltou mortinha. 
Não o se sabe o que a teria ceifado, contam que a linda assombração procurava por água, por causa que desidratou de  tempo que demorou para ir para o tumbalo, o que explica o pingar das torneiras. 
Diz a lenda  que ela passou a assombrar o casarão onde vivia a família, e quando o casarão foi virado em escola, ela não se intimidou, e tacou é fogo em tudo.
Ao mistério que é por excelência um mutante insondável,  mesclaram-se outras lendas ... Já ouvi até que a Loira é ruiva. 

Não é porque eu vi que existe, e não é porque eu não vi que não existe. 


FONTES Livro História e Memória da Escola Complementar de Guaratinguetá (1906-1913), de Debora Maria Nogueira Corbage; site G1; blog Fontes Primárias no Vale do Paraíba

domingo, 25 de outubro de 2020

Os gêmeos

 Dois galego vermeio nascido na lua minguante, só pode alma errante. 

 Diz que o menino que saiu primeiro já trouxe o outro puxado pela  mão. Um Jão Pedro, o outro Pedro Jão. Dorme junto, chora junto. Piquiticos demais, vinga não. 

 Em cada ponta do berço dos mirrados, um Cosme, outro  Daminhão, haja canja, reza e manjericão.

Já rapaizinho, Pedro Jão foi desenganado, pumirdi de doença de nó nas tripa, Jão Pedro, amargado na tristeza fez da cachaça sua fortaleza. 

 O pangaré torna Jão Pedro pra casa,  zigue-zague de formiga,  empacou na poeira rasa.

O caboclo beudo*, praguejou, sacudiu  puxou ... de nada adiantou,  caiu e mirou a noite anuviada, viu o vulto do terror. 

Cas costa na terra batida , olhou traveiz pra riba, e achou quem não procurou.

Não localizei o Autor da "foto" 

O Capa-Preta amuntado na mula sem cabeça. 

O SeuCapa-Preta faz o que nessas paragens cheidi  mata-burro que rebenta, mais essa medonha que sorta  fogo pelo zóio e pelas venta? 

Minha senda é vagar misturado cos bicho feio*, espreitar na treva, montar plantão na encruzilhada, assombrar na relva molhada. 

Guardar as janela das moça-flor, que marmanjo não há de pular, brincar cos cachorro brabo, tem muita alma penada pra pastorear.

Fazer recolhe de desalmado, e recoiê um bão moço aqui, outro acolá,  pre’esse serviço de cata-jeca é bão assim, noite sem luar, tempestade rodeano no mato alto relampejano. 

O do além, em formato de moreno pantaneiro ajeitou o chapéu, encarou o galego,  esporou  a macabra e sumiu em rastro de capa que avoua e fumaça assombrada. 

O vermeio não deu conta de acompanhar, quanto mais corria, mais não saia do lugar. 

Largue-di-mão da sofrência, deixa essa dor pra lá,  onde nóis vamu tem pasto bonito, corredeira e pomar, é onde seu pai e seu vô já está. 

Ao cantar do galo, a moça meio velha chorava na porta.  

Diz que antes da tempestade desabar, o desenganado foi visto na garupa do Capa-Preta, ingual rastilho de cometa. 

Não é porque eu vi que existe,  e não é porque eu não vi que não existe. 

 Making-off 

Causo em  prosa rimada da roça, ou rima prosada, vai para Dona Mariusa que sabe maismió dos combinamento de rima. 

* Beudo, termo caipirez para: alcoolizado, chapado e bem louco.  Quem nunca? 

*Bicho feio* sempre tem ... pergunta pro Almir e pro Renato

sábado, 22 de agosto de 2020

MOÇA DA ESTRADA

O causo é que  a vontade de passar a madrugada acalentado por formosa morena  fez o cabra engastalhar o caminhão no barro até as tampas.  

Toda a chuva do juízo final fora derramada naquelas paragens,  no retrovisor enlameado reluziu uma luz azul.

Um caminhão emparelhou, Fique sereno seu moço que vou lhe tirar desse cortado, sorriu a Moça Caminhoneira.

Ajude aqui menino a prender o cabo, vem ligeiro antes que o mundo se acaba em água e noite sem lua.

Diquejeitoquifoi, ninguém sabe, ninguém viu.

Encontro co senhor, ali no posto mais adiante, engatou marcha , e arrancou em trovoada. 

Na duvidança, o desatolado tentou acompanhar, mas a Dona da Noite não largou rastro patraís. 

Ancorado no posto perguntou por ela, Fio do céu, o rapaz do posto mostrou o recorte de jornal desbotado,  o cabra confirmou em desalento. 

Foi trombada feia por essas bandas, diz que de quando em quando a Moça socorre os companheiros de estrada, e depois vorta avuando pro lado de lá, coisa mai linda que já passou aqui nessa lonjura de mundo, pense moço um caminhão, carregado de estrela caía,  tudinho iluminado de azur, caquela morenona no piloto, coisa mai linda.  


Não é porque eu não vi que não existe,  e não é porque eu vi que existe.

Making-Off 

1ª da Série  Assombração Empoderada - Blog da Encardida 2020 

Descaradamente inspirada no Lado B - Moça Caminhoneira - (Carlos Cézar e José Fortuna)  do LP Os Cowboys Andarilhos - Carlos Cézar e Cristiano -  1982

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Óia o Trem

Nos antecipamentos de  passar, diz que um fumacê branco abre os caminhos na noite.
A neblina ligeirinha se almolda nos trilhos de jeito que vem se abrino tudinha pr'ele passar

Quem vem do Além-Graxa é o Trem Fantasma, a culpada foi a marvada da caldeira, que num último ato de rebeldia se explodiu em ferro tinindo e labaredas vermeias, carregando consigo a alma do trem  mais  meia dúzia nobres almas ferroviárias.

A Locomotiva Macabra, vem do 13º túnel, botano fogo pelas ventas e graceja nos trilhos de novo,  nela os finados, de apego com estrada de ferro, compromissados eternos na luta de domar a caldeira em fúria, das veiz  nem sabem que jazem todos no cemitério de Paranapiacaba. 

Na duvidança, fazes a molecagem :  pões a moedinha no trilho, não sejes mão de vaca e colocas logo a de 1 Real, é garantido que a recuperas, de onde vem e pra onde vai o Trem Sobrenatural, os dinheiros carecem de serventia.

 Não é porque eu não vi que não existe e não é porque eu vi que existe.

* In Memorian - Jacaré *



quinta-feira, 28 de julho de 2016

O Borracheiro

Frango caipira com síndrome do pânico, cachorro brabo saindo de fininho e mula mansa mais empacada que Panhead temperamental,  são provas irrefutáveis de lobisomem no perímetro. 
As feições encovadas,  barba de sobra ,  braço peludo e cara suja de graxa não contribuem em juízo contrário. 
http://www.yoshihitotomobe.com/yoshihito
Noite de lua cheia o Borracheiro,  amunta na cinquentinha e açulera para o sítio, afim de uivar em paz, devorar uns frangos crus e quentes e tocar o terror nos cachorros da área - programão, ou quem sabe rolar e coçar as costas no terreiro de café e finalizar o banho de lua capotado com as quatro patas para cima - gostoso. Talvez encontrar uma Lobismina para um flerte selvagem e irresponsável - mais gostoso. 

Sei não, o fato é que passados muitos anos o Borracheiro abriu uma bicicletaria bonita na cidadezinha, ninguém mais tem medo de lobisomem, os negócios vão bem. 


  

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

GUARDIÃ


Motoqueiro rabugento, boa pinta e metidão, desligou a Viuvinha Negra.
Ao adentrar à casa, sua coragem rastejou para baixo do sofá, feito cachorrinho.
http://www.yoshihitotomobe.com/yoshihito

Tal qual mesinha de centro, uma assombração de calça jeans, guardiã imóvel montava plantão  no meio da sala ... na indecisão de ficar ou passar, o bundão acelerou e encontrou caminho pela direita.


No momento crítico da "ultrapassagem" quando  espremido entre o sofá e visão fantasmagórica, a luz apagou-se.

Restou ao valentão subir as escadas aos berros e solavancos, refugiando-se em  fervorosas orações à Nossa Srª da Graxa, na intensão de que a Tal lá da sala não viesse em seu encalço. 

Acordados todos na casa, seu Mané pai muito brabão, surrou Hector com uma calça jeans que encontrou de pé no meio da sala, o rapaz, por sua vez, fez o mesmo, com as duas irmãs,  acusadas injustamente  pelo engenho da armadilha sinistra.

A suposta  artimanha teria sido concebida pelas prendadas mocinhas ao recolherem uma calça esturricada do varal.


Making - off 


Causo  do século passado ,  quando calça jeans era de jeans, duro e pesado e sem frescuragem.

Sei, por fontes fidedignas, que a luz apagou sozinha mesmo.
Troquei uns nomes e coloquei uma graxinha para dar emoção,  

 Créditos da "foto" http://www.yoshihitotomobe.com


sexta-feira, 7 de agosto de 2015

FUMACENTA


Diz que em noite sem lua, tem luz de mansinho alumiando no meio do cafezal, desliza amaldiçoada procissão de gente sem cara, e velas à mão, rezando Pai Nosso do avesso,  condenadas à escolta de caixão que avôa 7 parmos do chão sem cair nem bambear.

Hordas de colonos a largar mão da lida por conta da maldição.

Personalidade rústica e cara vincada, sendo capataz, briguento e impetuoso, fazia ronda no cafezal montado em belo alazão Malhado... só que não... vou “amuntar” o peão em bela moto inglesinha que sinhozinho, menino coxinha, raptou de Londres,  caiu, ralou-se, desgostou e pronto. 
  
Na duvidança da crendice do povo, o valentão guardou tocaia. 

À visão da tal de luz, acelerou em trovoada de óleo queimado e fumaça branca, sacou a garrucha: Se for coisa Santa, que Deus que me perdoe, se for do Diabo, que Deus me proteja, porque vou passar é fogo....

Foi tiro e debanda geral, poeirão e assombração catando cavaco pelas 3 fazendas da redondeza, ancorado em terra vermelha ficou o caixão que avoava, desconfiança ... no bico da bota abriu a tampa, jaz sagrados grãos de café tipo exportação.  

Making-off

Diz que por “indulgência” da sinhazinha, ele conseguiu a posse da Fumacenta, e pegou dengo, na moto, não na sinhá.

Reza a lenda que o capataz morreu muito velho e turrão, na ocasião em que rebentou a inglesinha na ribanceira.
Não se sabe se caiu porque morreu ou morreu porque caiu, diz que em noite fechada, há quem veja fumaça branca nos cafundós da fazenda virada em hotel chique.

terça-feira, 23 de junho de 2015

TÁ (OU) VINDO?

http://www.yoshihitotomobe.com/yoshihito
Carburadas na poerinha de chão batido, ilusão de acertar o
caminho, sem lua,  nem estrela, só neblina adentro.

Depois de duvidar, fazer o nome do pai e bifurcar à esquerda e à
direita , barulho de carroça desgovernada retumbante.
Tá (ou)vindo?

Manobra rápida das traquitanas para lateral beira-porteira, estrondo e silêncio na encruzilhada . Gasolina gelada nas veias.
Sem carroça, cavalo ou cavaleiro, para socorrer, meia volta,
freio-motor à toda prova e fog no retrovisor.

Eu hein!

Making-off
História da Roça,  narração original da Tia Palmira do MS, só
encardi, taquei um pouco de gasolina.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Piquiniqui Sinistro

O detalhe do detalhe perdido pela falta de registro imediato.
Foi  Trem sobrenatural, os caras, e a mina.
http://www.yoshihitotomobe.com/yoshihito
surrupiando o sossego dos fantasmas à beira dos trilhos do trem.
Sem mandinga, só de comer e de beber.
Na falta de uma virgem para o sacrifício, os
causos e lorotas rondaram a estação abandonada.
A neblina espreita, esconde a lua e engana as vistas.
Antes da Hora das Bruxas, os Malvadões tomam o rumo de casa.
O pessoal cheio de atributos tecnológicos, registrou para a posteridade o Trem Sobrenatural na estradinha.
Ninguém soube identificar quem era o motociclista
misterioso que aparece na filmagem, mas não consta do passeio.

Making-off

Caso alguém o faça, será de bom tom calar a boca...


terça-feira, 14 de agosto de 2012

Norton From Hell


Não fosse o neblinão e a chuva,  a lua cheia estaria alta.
A noitada de velharias no mercadão abrigou os corajosos e os nem tanto.
No frio de derrubar assombração da árvore, a farra seguia firme,
quem tinha de vir já chegou faz tempo.
Fumaceira branca, barulho de escape aberto e carburador falhando invadem o galpão, uma traquitana inglesinha vira parte da festa.

Making-off
Teve marmanjo que jura de pé junto que até cumprimentou o piloto da Norton From Hell ,  em contrapartida tem cabra que não arredou o pé do galpão jura não viu nada disso...
Diz ainda que lá no cemitério da Vila, além da Trigueira Juliana está também um tal de Jack fugitivo de Londres  abrigado na neblina.

Em tempo
Paranapiacaba 2008 -  Quem foi, foi!
Para evitar fadiga judicial, só digo que o cara que cumprimentou o piloto fantasma é o mesmo que alega ter visto  pererecas cromadas em São Thomé das Letras.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Cowboy

http://www.yoshihitotomobe.com/yoshihito/
Em São Paulo quase Minas, frio de estralar
Tem uma moto branca vazando óleo à beira do vale
Motor quente, cheiro de gasolina
Costas largas e Jeans surrado acendem o desejo 
Diz que a bela que monta na garupa, não volta mais, se retornar, é de coração moidinho, e juízo avariado.
No século passado, em noite de 13 de agosto o Cowboy foi da estradinha feita no caminho da carroça para o paletó de madeira, sem escala na Santa Casa do lugarejo.
Diz que o marvado dá as caras no acostamento nesta data, na gana de ceifar alguma desavisada.
Azar, sorte ou dia errado, nunca o vi...
Reza a Lenda que a estradinha é a Capitão Barduíno.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Juliana

Madrugada, viseira turva de neblina, na estradinha garoa fina
Batidão carburado no fog londrino de Paranapiacaba
Atarrachada na garupa da miliduque vermelha, vai a morena trigueira
Curvas formosas, olhos de amêndoa
Faz que vai mas fica, beijo roubado no acostamento
Lua cheia escondida, despedida na soleira da porta


Pretexto para retorno, largou a jaqueta nos ombros da morena

Um dia depois o senhor de rosto vincado atende a porta, mostra a foto,
e para não passar por mentiroso leva o Alemão ao cemitério.
A jaqueta está à disposição no túmulo da trigueira, que bateu as botas há 17 anos.

Making-off
Diz que o nome dela era Juliana e jaz no cemitério de Paranapiacaba
Filha amada e professora querida

* 1970
+ 1995
Quem não acreditar pode perguntar para o Eullão.
O cara paga uma grana pelo resgate da jaqueta, mas tem que ser em noite de lua cheia.
* Ilusração David Mann